(Sophie Calle em Paris, na Biblioteca Nacional da França, que abrigou a mostra Cuide de Você em 2008. O papel no chão simboliza o e-mail de rompimento enviado à artista por Grégoire Bouillier)

Desde o dia 10/7 está tendo a exposição da artista contemporânea Sophie Calle no Sesc Pompéia (vai até o dia 7/9).
Para quem ainda não sabe, a exposição é baseada no e-mail que ela recebeu do ex-namorado (na época era namorado dela) – o escritor Grégoire Bouillier – terminando o relacionamento deles. O nome da exposição se refere justamente a expressão que Grégoire utilizou para terminar seu e-mail, aquele bom e velho “cuide-se”. A artista mostrou o e-mail para diversos tipos de mulheres, dentre elas: bailarina, palhaça, atriz e etc e todas as manifestações foram reproduzidas em texto, foto ou vídeo.
Grégoire Bouillier alega no e-mail que está terminando o relacionamento porque não consegue ficar apenas com Sophie e não estava a fim de enganá-la; logo ele prefere terminar tudo. Muita gente achou que foi crueldade; mas sei lá, pelo menos ele foi honesto, pior seria encher a cabeça da coitada de chifres hehehe; só achei um pouco de sacanagem ter feito isso por e-mail, mas enfim…
Na minha humilde opinião, o que importa pra ele não é o amor que ele tenha ou não em relação à Sophie, mas sim, seu amor próprio e auto estima. É o típico homem de meia idade que sente que está perdendo a virilidade e logo estará fadado a uma decrépita velhice que não terá nem de longe toda a excitação que um dia já teve em sua juventude; como bom espécime do sexo masculino que é, resolve se auto-afirmar como ainda sendo “macho-bon vivant” se relacionando com várias mulheres. E no final das contas, eu acho que ele tá é muito certo! Que ele aproveite o resto da sua vida (ou virilidade) da melhor maneira que lhe aprouver e deixa a outra lavar roupa suja nas galerias desse mundo afora.
Não estou suuuuper animada em relação a esta exposição, mas acho que vou sim, quem sabe não esteja tendo outra exposição mais interessante na sala ao lado? hahahaha.
Well, abaixo segue o fatídico e-mail do pé na bunda:
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“Cuide-se”
“Há algum tempo, venho querendo responder seu último e-mail. Na verdade, preferia dizer o que tenho a dizer de viva voz. No entanto, vou fazê-lo por escrito.
Você já pôde notar que não estou bem ultimamente. É como se não me reconhecesse em minha própria existência. Sinto uma espécie de angústia terrível, contra a qual não consigo fazer grande coisa, exceto seguir adiante para tentar superá-la. Quando nos conhecemos, você impôs uma condição: não ser a ‘quarta’. Eu mantive o meu compromisso: há meses deixei de ver as ‘outras’, não achando logicamente um meio de vê-las sem transformar você em uma delas.
Pensei que isso bastasse. Pensei que amar você e que o seu amor – o mais benéfico que jamais tive – seriam suficientes. Pensei que assim aquietaria a angústia que me faz sempre querer buscar novos horizontes e me impede de ser tranquilo ou simplesmente feliz e ‘generoso’. Pensei que a escrita seria um remédio, que meu desassossego se dissolveria nela para encontrar você. Mas não. Estou pior ainda; não tenho condições nem sequer de lhe explicar o estado em que mergulhei. Então, nesta semana, comecei a procurar as ‘outras’. Sei bem o que isso significa para mim e em que tipo de ciclo estou entrando. Nunca menti para você e não é agora que vou começar.
Houve uma outra regra que você impôs no início de nossa história: no dia em que deixássemos de ser amantes, seria inconcebível para você me ver novamente. Você sabe que essa imposição me parece desastrosa, injusta (já que você ainda vê B., R.,…) e compreensível (obviamente…). Com isso, jamais poderia me tornar seu amigo. Você pode, então, avaliar a importância de minha decisão, uma vez que estou disposto a me curvar diante de sua vontade, ainda que deixar de ver você e de falar com você, de apreender o seu olhar sobre os seres e a doçura com que você me trata sejam coisas das quais sentirei uma saudade infinita. Aconteça o que acontecer, saiba que nunca deixarei de amar você do modo que sempre amei desde que nos conhecemos, e esse amor se estenderá em mim e, tenho certeza, jamais morrerá.
Mas hoje seria a pior das farsas manter uma situação que, você sabe tão bem quanto eu, se tornou irremediável, mesmo com todo o amor que sentimos um pelo outro. E é justamente esse amor que me obriga a ser honesto com você mais uma vez, como última prova do que houve entre nós e que permanecerá único.
Gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente.
Cuide-se.”




Querendo sumir nas entrelinhas.
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